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Como começou a sua história no Grupo Riopele, ainda na Filatex, e como recorda a empresa nessa altura?
A minha trajetória na Riopele iniciou-se a 3 de maio de 1991, quando estive cerca de um mês em estágio na empresa. No final desse período, ingressei na sociedade do grupo denominada Filatex Têxteis, S.A., situada em Rebordões, Santo Tirso. Na Filatex, desempenhei funções na área administrativa, assegurando a articulação entre a Filatex e a Riopele no âmbito do reporting da informação contabilística e financeira.
A Filatex não tinha a dimensão nem a verticalidade da Riopele, uma vez que se tratava de uma empresa exclusivamente dedicada à fiação. Não obstante, recordo com clareza que, nessa altura, contava com cerca de 340 colaboradores. A Riopele era o principal fornecedor de matéria-prima e, simultaneamente, o único cliente, absorvendo toda a produção da Filatex. Por ser uma empresa de menor dimensão, todos se conheciam e existia uma grande amizade e interação entre todos. Recordo esses tempos com saudade.
Houve algum período particularmente desafiante do ponto de vista financeiro que tenha exigido maior capacidade de adaptação?
Sinceramente, não me recordo de qualquer período com constrangimentos relevantes a esse nível. Isto porque, para além da dependência económica e operacional, a Filatex dependia também financeiramente da Riopele. Mensalmente era elaborado um orçamento de necessidades de tesouraria, o qual era integralmente satisfeito pela Riopele. Naturalmente, essa situação poderia ter impacto na própria Riopele, mas não tinha repercussões diretas na tesouraria da Filatex.
No que respeita a investimentos, estes eram sempre articulados pela Riopele e apenas realizados quando existiam condições financeiras para tal. Por outro lado, a Riopele recorria frequentemente à Filatex para suprir necessidades de última hora e pequenas quantidades, de forma a conseguir satisfazer atempadamente pedidos específicos dos seus clientes. Esta dinâmica obrigava a Filatex a estar permanentemente preparada para alterar configurações de máquinas e ajustar a produção em função das necessidades da Riopele.
Como consequência, o desempenho e a performance ao nível da produção eram frequentemente afetados, devido às constantes mudanças e interrupções no planeamento produtivo.
No que concerne à Riopele, a premissa financeira tem de estar sempre presente no dia a dia da empresa, e essa adaptação tem de ser sempre constante.
O que sente ao ver a evolução da Riopele ao longo destes quase 100 anos?
Ao observar a evolução da Riopele ao longo destes quase 100 anos, sinto um grande orgulho e admiração pela trajetória da empresa. A transformação de um negócio que nasceu num moinho para uma das principais referências do setor têxtil em Portugal, evidencia resiliência, visão estratégica e capacidade de adaptação às mudanças do mercado que, constantemente exige antecipação e visão inovadora.
Essa evolução traduz-se não apenas em crescimento, mas também em modernização, inovação e reforço da qualidade e competitividade.
O percurso da Riopele demonstra uma construção sustentável e consistente ao longo do tempo, baseada em decisões responsáveis, investimento contínuo e um compromisso sólido com a excelência e com o futuro.
O fecho de contas perfeito é mais parecido com um tecido sem falhas ou um tecido inovador?
Julgo que o fecho de contas resulta de uma simbiose das duas premissas. Como tal, vejo o fecho de contas perfeito como um tecido inovador e desafiante. Não é a ausência de dificuldades que garante a qualidade, mas a forma como essas dificuldades são tratadas, justificadas e documentadas, assegurando fiabilidade, transparência e qualidade da informação financeira. Além disso, a informação tem de ser sempre perfeita, sem defeitos, de forma que a administração possa olhar para os resultados e, assim, tomar decisões atempadas, de uma forma mais fiável e confiante.
Se os números falassem, o que diriam sobre a Riopele?
Se os números falassem, diriam que a Riopele é uma empresa com quase um século de capacidade de adaptação. Nascida em 1927, os seus números contam uma história de resiliência, investimento contínuo e reinvenção num setor altamente competitivo como o têxtil. Mais do que volumes ou margens, refletem decisões estratégicas ao longo do tempo, foco na qualidade e uma gestão que conseguiu atravessar ciclos económicos muito diferentes mantendo relevância. E nesse capítulo, a Riopele deve muito à tenacidade e teimosia arrojada do Dr. José Alexandre Oliveira.
O que mais o orgulha quando olha para o desempenho financeiro da Riopele?
O que mais me orgulha é ver a capacidade de recuperação e a consistência da melhoria financeira após um período de grandes desafios. Não foi uma recuperação rápida ou fácil, mas sim construída com disciplina, rigor e decisões estratégicas sustentadas. Isso reflete uma empresa resiliente, capaz de aprender com as dificuldades e reforçar a sua posição financeira sem perder o foco na qualidade e na sustentabilidade do negócio.
Qual é o mês mais temido pela contabilidade?
Pessoalmente, considero que o mês mais exigente é janeiro, estendendo-se por vezes a fevereiro. Tal se deve ao facto de, para além do fecho de contas e de todo o trabalho que esse processo envolve, ser igualmente necessário assegurar a gestão corrente do próprio mês. Ou seja, trata-se de um período em que a carga de trabalho é, na prática, duplicada.
Qual departamento gasta mais sem olhar para o orçamento?
Todas as decisões a nível de investimento, têm de ter sempre presente a base orçamental pré elaborada para cada departamento. Relativamente à resposta em si, julgo que é o departamento de investigação e desenvolvimento. Mesmo que não seja o que mais gasta em valor absoluto, o I&D exige flexibilidade financeira, porque os ciclos de inovação e desenvolvimento tecnológico não se alinham com orçamentos fixos. Para garantir competitividade e atualização tecnológica, os investimentos têm de ser ajustados conforme oportunidades e necessidades do mercado, o que pode resultar em despesas que ultrapassam o planeado.
Se não trabalhasse com números, trabalharia com?
Sinceramente, mesmo que não trabalhasse exatamente com números, continuaria a trabalhar com números! Não me vejo a desempenhar uma atividade completamente desligada deles. Talvez em auditoria, no ensino ou noutra área, mas sempre com os números como pano de fundo.