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2025-06-26

"A IA não é um destino - é o reflexo da maturidade e da visão de cada organização", afirma o CIO da Riopele


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Conversamos com Rui Godinho de Oliveira, Chief Information Officer of Riopele Group, para perceber como a Riopele está a construir um modelo de indústria inteligente, centrado nas pessoas, movido a dados e orientado para a agilidade de resposta no setor da moda.

 

A Inteligência Artificial (IA) é hoje um dos temas centrais na agenda empresarial. Qual é a perspetiva da Riopele sobre esta transformação?

Para a Riopele, a Inteligência Artificial vai muito além de uma simples tendência tecnológica — é uma ferramenta de gestão avançada ao serviço do negócio. Vemos a IA como um acelerador estratégico que nos ajuda a ser mais eficientes, a reduzir tempos de resposta, a antecipar tendências com rigor e a estruturar o conhecimento de forma contínua.

Mas a IA só cria valor quando está apoiada numa base sólida: processos claros, sistemas integrados, dados acessíveis e uma cultura digital forte. Na Riopele, construímos essa base com método. E é por isso que hoje temos a maturidade necessária para integrar a IA com impacto real.

 

O que foi feito para criar essa base sólida? Que enablers foram decisivos?


O primeiro passo foi a transformação digital. Ao longo dos últimos anos, reorganizámos os nossos sistemas, automatizámos processos, estruturámos dados e desenvolvemos painéis e plataformas que apoiam a tomada de decisão.

Também trabalhámos muito na integração entre diferentes áreas — produção, energia, manutenção, I&D, design, planeamento, logística, comercial, finanças e recursos humanos. Isso criou uma espinha dorsal digital onde a informação circula de forma fluída e com contexto.

Mais importante ainda, preparamos a organização para trabalhar de forma colaborativa e inteligente. Os processos deixaram de ser lineares e isolados, passando a ser interdependentes e impulsionados por dados e conhecimento.

 

Como está estruturada a visão da Riopele para a IA?

Temos uma abordagem clara, aplicando a IA em três níveis: estratégico, tático e operacional.

No plano estratégico, combinamos dados internos com sinais do mercado, tendências de consumo, matérias-primas e informação geoeconómica para orientar decisões de posicionamento, investimento e portefólio.

No tático, desenhamos e simulamos cenários, antecipamos gargalos, ajustamos a capacidade produtiva, prevemos ruturas e otimizamos fluxos com base em inteligência contextual.

No operacional, queremos ir mais longe. Queremos que a IA apoie diretamente quem está no terreno: quem gere uma máquina, uma linha de produção, uma ordem de manutenção ou uma preparação logística.


Como se aplica, então, a IA na produção? Que impacto é esperado nas operações industriais?

A IA será um copiloto da produção em tempo real. Estamos a implementar algoritmos que ajustam parâmetros conforme as variações das matérias-primas ou do ambiente, antecipam desvios de qualidade e sugerem correções antes que os erros aconteçam, recomendam sequências produtivas mais eficientes e otimizam a alocação de ordens entre unidades, com base na capacidade e nos prazos.

Além disso, através de interfaces por voz, realidade aumentada e visualização contextual, a informação chega de forma natural a quem mais precisa — os operadores e técnicos.

O impacto? Decisões mais rápidas, menos erros, mais qualidade, menos paragens e, acima de tudo, mais confiança nas decisões tomadas em cada momento.

 

A Inteligência Artificial também afeta a gestão do capital humano. Qual é a visão da Riopele nessa dimensão?

Acreditamos que a IA vai elevar a experiência, a motivação e o desenvolvimento das nossas pessoas.

Ao libertar os colaboradores das tarefas rotineiras, permite que possam focar-se no que traz mais valor para a empresa — resolução de problemas, criatividade, melhoria contínua, contacto com clientes e inovação.

Além disso, ajuda a personalizar os percursos de aprendizagem e de carreira, reforça a equidade nas avaliações e sugere ações de desenvolvimento alinhadas com as ambições individuais e as necessidades da empresa. A tecnologia será um facilitador do crescimento pessoal, fortalecendo a cultura interna, atraindo talento e diminuindo atritos.

E quanto ao conhecimento interno e à continuidade entre gerações?

Esse é um pilar fundamental para nós. A IA será o motor da gestão do conhecimento intergeracional. Temos décadas de saber acumulado — nas decisões, nos processos, na experiência de quem está connosco há 30 ou 40 anos — e queremos transformar esse conhecimento em inteligência acessível e reutilizável.

A IA vai aprender com a nossa história, reconhecer padrões, registar decisões eficazes e ajudar as novas gerações a aprenderem mais rápido e melhor. Essa gestão inteligente do conhecimento será um dos nossos maiores diferenciais no longo prazo, num setor onde a experiência e a excelência operacional são insubstituíveis.

A moda vive de tendências. Que papel terá a IA nesse domínio?

Um papel absolutamente central, tanto para a Riopele como para toda a fileira.
A nossa competitividade depende da capacidade de prever e responder com rapidez e precisão às tendências de mercado.

A inteligência artificial permite à indústria da moda analisar sinais de baixa intensidade em tempo real, identificar microtendências emergentes, correlacionar dados de consumo, redes sociais, coleções e pedidos de amostras, e ajustar rapidamente portefólios de tecidos, cores e materiais. Com base em dados reais e simulações preditivas, a IA apoia o design de produto e acelera o ciclo entre a ideia e a resposta.

Num setor onde a velocidade com inteligência é a chave do sucesso, a IA afirma-se como o verdadeiro motor dessa agilidade.


E em matéria de sustentabilidade e compliance ESG?

A IA será essencial para transformar o ESG em instrumento de decisão — não apenas de reporte.
Estamos a preparar soluções que automatizam a recolha, validação e comunicação de dados ambientais, sociais e de governance. Queremos que cada decisão operacional — da seleção de um fio à escolha de um transportador — seja acompanhada por uma métrica de impacto.

Além disso, com inteligência artificial conseguimos simular decisões futuras, medir impacto potencial e escolher o melhor caminho para o negócio e para o planeta.

 

Que mensagem final deixaria a outras empresas que estão a dar os primeiros passos?


A IA não é um destino — é o reflexo da maturidade e da visão de cada organização.

O erro mais comum é investir por impulso, sem bases. Empresas que “compram tecnologia” sem preparação acabam com processos caros e ineficazes. A IA exige propósito, estrutura, liderança e visão.

Na Riopele não corremos atrás da inovação - antecipamos, planeamos e preparamos o terreno para escalar com confiança.

Queremos que a tecnologia uma extensão natural do nosso modelo de negócio, ao serviço da excelência, da sustentabilidade e da criação de valor para o cliente, para as pessoas e para a sociedade.

Não queremos correr atrás da disrupção — queremos moldá-la com propósito, com inteligência e com responsabilidade.